Código Florestal IV: A Tragédia dos Comuns
O texto de Hardin é um clássico da literatura ecológica que discute, dentre outras coisas, os conflitos de interesses existentes no uso de um recurso. De forma bastante clara, ele demonstra como a utilização irrestrita de um bem coletivo leva inevitavelmente ao seu completo esgotamento. O exemplo utilizado por Hardin foi retirado do trabalho do matemático William Foster Lloyd sobre a posse comunal de terras em aldeias medievais.
Imagine uma área de pastagem pública onde qualquer pessoa possa colocar seus animais para o pastejo e engorda. De forma geral, todos têm um interesse comum em preservar esse local, porque é a partir dele que conseguem alimentar suas crias. Como se trata de um pasto público, entretanto, ninguém pode ser impedido de utilizar a área. Cada animal novo que é colocado para pastar gera um resultado positivo para seu criador, na forma de aumento do seu lucro. Mas cada animal a mais gera também um impacto negativo sobre a pastagem, que tende a uma superexploração. Quando o pasto acaba, todos que o utilizam são prejudicados. Ou seja, o lucro é individualizado, mas o prejuízo é dividido pela coletividade.
Esse exemplo serve muito bem para explicar porque é tão difícil se ter sucesso com as políticas de preservação atuais. A lógica que se estabelece todas as vezes em que se admite o uso de um recurso comum é, na definição mais simples, “egoísta”. Parece fazer parte da natureza humana a tendência de se tentar tirar o máximo proveito de algo, sem se preocupar com o quanto se contribuiu individualmente para sua produção ou proteção.
Essa lógica se faz presente em praticamente todas as esferas da sociedade e se manifesta de diferentes formas. Em todas elas, entretanto, o que se observa é um entendimento intrínseco de que “o que é público não tem dono e por isso mesmo cada um utiliza do jeito que bem entender”. Isso se observa no aluno que depreda a escola pública em que estuda, no cidadão que não se importa em deixar a torneira aberta enquanto escova os dentes, ou no político que passa a fazer as mesmas coisas que costumava criticar antes de ser eleito. Se o bolo é da coletividade, se sai melhor aquele conseguir pegar o melhor pedaço, não importando se um dia ele acabará e todos morrerem de fome. A tragédia se refere justamente a isso. Um dia, tudo que é superexplorado se esgota e não importa se você pegou apenas o que lhe era devido ou se abocanhou mais do que podia, todos terão o mesmo fim.
As florestas, assim como a água, a biodiversidade e os demais recursos naturais são bens da coletividade. A todos é dado o direito da utilização, assim como o dever da preservação. Mas é justamente aí que mora o problema, pois a tendência natural é a de que todos utilizem, mas poucos se preocupem em preservar. Devido a isso é que o papel das leis e da fiscalização é importantíssimo. Deixar a cargo da consciência de cada um a responsabilidade da manutenção dos recursos é, no mínimo, arriscado.
Compreender a lógica da Tragédia dos Comuns é importante para que se possam definir ações e políticas públicas que levem efetivamente à conservação. Se os seres humanos tendem a agir somente em benefício próprio, por que até hoje não se estabeleceu uma política ambiental pautada na valorização dos que preservam? Por que não fornecer incentivos fiscais, econômicos e tecnologia para os proprietários que mantem conservadas as suas APPs e reservas legais? Por que não premiar o certo ao invés de apenas punir o errado?
O projeto em análise para alteração do código florestal não traz nenhum tipo de subsídio ou incentivo a quem se dispõe a preservar. Muito pelo contrário, a proposta atual é anistiar quem desmatou, desvalorizando ainda mais os que sempre andaram de acordo com a lei. Esse é mais um dos motivos que me fazem repudiar o texto aprovado na câmara. As alterações propostas ao mesmo tempo em que incentivam o desmatamento, não abrem nenhuma porta para motivar a preservação.
A mudança de paradigma na política ambiental brasileira é uma necessidade urgente. Perceber os erros depois que o bolo já tiver acabado não vai adiantar de mais nada.
Fonte: http://www.grnewns.com/
www.artemisambiental.com

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